Não Trago a Pessoa Amada: Tarot, Aconselhamento e Autorrealização

Ninguém sabe quem resolveu adicionar um quinto naipe, batizado de “Trunfo”, aos quatro já existentes, dando origem ao tarot. Não sabemos quem criou nem com qual propósito foi criado. A princípio, para entretenimento – é o senso comum.

Thoth Tarot
Thoth Tarot

Mentes em busca do extraordinário contam histórias incríveis. Uma ensina que as imagens foram criadas por uma civilização superior de um continente submerso. Outra fala de segredos guardados na Grande Pirâmide e gravados em placas de ouro. Há também quem dê o crédito a grupos étnicos naturalmente conectados à espiritualidade, sendo mensageiros de outras esferas. O que posso apresentar de concreto é que as representações iconográficas são reflexo de uma época. Mais especificamente, a vida na Europa do século XV.

O próprio nome, trunfo, é correlato a trionfi, um desfile ou procissão, de acordo com a circunstância, que ganhou ilustrações e poemas na mesma época do surgimento do tarot. Não por acaso, seis arcanos reproduzem alegorias ou personagens de I Trionfi, poema escrito por Francesco Petrarca (1304-1321). Outras imagens são claramente identificadas em diferentes obras da Renascença. Encontramos de tudo um pouco, incluindo representações alquímicas em alta naquele período. Essas constatações tornam um tanto inviável qualquer teoria Illuminati.

O Enamorado – Tarot de Marseille
O Enamorado – Tarot de Marseille

O tarot dos ocultistas

Já em franca decadência, as cartas foram apresentadas ao ocultista suíço Antoine Court de Gébelin (1719-1784). Ele foi o primeiro a “reconhecer” nas lâminas elementos do lendário “Livro de Thoth”, deus egípcio do conhecimento. Suas conclusões foram publicadas na obra Le Monde Primitif (“O Mundo Primitivo”), em 1781, e fizeram bastante sucesso. A partir deste ponto, o aspecto místico das cartas seria abordado por nomes importantes, como Etteilla, Eliphas Levi, Papus, William Wynn Wescott, MacGregor Mathews, Arthur Edward Waite, Aleister Crowley e assim por diante.

Se a estrutura simbólica do tarot não criptografava uma mensagem para poucos escolhidos, essa roupagem foi criada com argumentos convincentes. Cada detalhe (original ou adicionado posteriormente) ganhou uma razão para estar ali. Uma profusão literária lhes atribuiu valores tanto iniciáticos quanto preditivos.

Existe uma dimensão da mente que, efetivamente, trabalha bem com o universo simbólico. A história da cartomancia reúne diferentes exemplos. Temos as cartas comuns de cassino, as sibilas de diferentes nacionalidades e o tarot. São 500 anos de baralhos criados com este propósito, incluindo The Forty Servants, do irlandês Tommie Kelly, lançado em 2016. Editoras especializadas trazem novidades todos os meses. A qualidade de cada oráculo dependerá da proposta do autor e do repertório de quem o interpreta.

É importante ressaltar que o trabalho oracular não exige mediunidade. A intuição é desenvolvida com a prática, mas não é uma exigência inicial. E, por intuição, me refiro mais a percepções inspiradas do que faculdades como clarividência ou clariaudiência. Obviamente, médiuns ganham nas cartas um trampolim, mas é necessário desmistificar o processo como um todo. Qualquer um pode aprender a interpretar o tarot ou outro oráculo de sua escolha.

A estrutura do tarot

 Marseille Fournier
Tarot Marseille Fournier

Especificamente com relação ao tarot, temos uma estrutura 78 cartas. 22 delas são chamadas de arcanos maiores, com títulos como “O Louco”, “O Eremita”, “O Diabo”, “A Estrela”. Todas representam imagens arquetípicas. As 56 restantes são chamadas de arcanos menores. Os arcanos menores são divididos em 4 naipes (Ouros, Espadas, Copas e Paus) com 14 lâminas cada. 10 dessas lâminas são cartas numeradas de Ás a Dez (2 de Paus, 5 de Copas etc.) e representam processos; 4 são figuras da corte (Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei) e representam personas. Entendemos personas como máscaras sociais assumidas (conscientemente ou não) para lidar com uma determinada situação.

Por uma questão de ignorância ou oportunismo, algumas pessoas chamam de “tarot” oráculos que não são tarot. Pode parecer preciosismo, mas é uma questão de dar o nome certo às coisas. Um baralho com outro número de cartas e imagens diferentes da matriz original pode ser incrível, mas não é tarot. É um erro, por exemplo, se referir ao Lenormand como “Tarot Cigano”, embora seja muito comum a expressão.

Os jogos obedecem a padrões preestabelecidos: eu determino um número de cartas, as posições e os atributos das casas. Um modelo simples: três cartas em linha, da esquerda para a direita, representando o passado, presente e futuro da situação. Poderia ser “o que expande” na direita, “o que contrai” na esquerda e “o que equilibra” no centro. Não importa o que eu faça, contanto que formule antes a pergunta e as regras.

O que as cartas do tarot podem dizer?

Waite-Smith Tarot
Waite-Smith Tarot

Esta introdução burocrática é necessária para quem pouco ou nada conhece do tarot. A parte divertida é falar das cartas e o que elas podem indicar em uma leitura, certo?

De modo geral, a gente aprende os significados básicos de cada arcano nos quatro planos principais: material, mental, emocional e espiritual.

A partir disso as cartas podem prever o futuro? Podem. Muito mais como uma tendência do que um plano traçado. O simples fato de tomar consciência de algumas coisas pode promover transformações. Outras são inevitáveis e o jogo irá sugerir a melhor forma de fazer a travessia.

Muitos profissionais terão o foco na previsão. É o compromisso de cada um e, obviamente, há quem procure estritamente este tipo de trabalho.

Outros, como eu, são “caçadores de porquês”. Então, mais importante do que dizer se um relacionamento tem futuro, eu vou explorar o que faz ele dar certo e o que atrapalha. Também qual a responsabilidade ou  capacidade de mudança da pessoa que procura a orientação. Entram na pauta processos internos relevantes (tanto os conscientes quanto os inconscientes), oportunidades, desafios e reflexões. As cartas podem validar uma impressão, dissipar um equívoco ou fazer com que algumas fichas caiam.

Tarot não é terapia

Tarot of the Witches
Tarot of the Witches

“Ah, então vira uma terapia?”. Não. Terapia é para terapeutas. Há quem adote a expressão “tarot terapêutico”, mas eu não gosto disso. A consulta de tarot é uma conversa que oferece aconselhamentos no que é possível realizar durante uma única consulta. Tudo feito com muita responsabilidade. O cliente volta, se tiver vontade, quando achar que deve. Quando me perguntam quando voltar, respondo “não tão cedo”. A gente não pode criar dependência. É preciso que cada um desperte o seu oráculo interno.

Quanto maior o repertório do oraculista e familiaridade com os arcanos, maior a sua capacidade conectar conceitos e ensinamentos. Sim, porque há muitos níveis de entendimento envolvidos.

Os quatro níveis de entendimento do tarot

Eu gosto de pegar emprestado da tradição judaica uma estrutura conhecida como PardesPardes, literalmente, significa “pomar”. De modo geral, não se trata de um pomar qualquer, mas do próprio Paraíso. As quatro letras hebraicas de PaRDeS servem acróstico para descrever quatro possíveis abordagens de qualquer texto bíblico, a saber:

Pshat (פְּשָׁט) – significado direto ou simples

O Pendurado – Oswald Wirth
O Pendurado – Oswald Wirth

Vou acrescentar “óbvio” ou “literal” apenas para ajudar.

Tomemos o Arcano 12 como exemplo. Ele leva o nome de “O Pendurado”. Em português, algumas pessoas têm o hábito de chamar de “O Enforcado”, mas isso é errado. Pessoas enforcadas têm morte imediata. O que temos diante de nós um homem suspenso com um dos pés. Ele está amarrado em um travessão ou galho de árvore e não consegue sair sozinho, por mais que tente.

Qualquer pessoa que nunca tenha visto uma carta de tarot pensará em punição, desconforto e imobilidade, correto? Sim, sofrimento, paralisação e impotência são alguns dos atributos desta lâmina. O consulente se encontra “suspenso” e sem ação. Dependendo do baralho, moedas podem cair de seus bolsos, indicando perdas sem que ele possa fazer algo para evitar.

Esta é uma das cartas que ninguém quer na mesa. Por isso mesmo é interessante falar dela. Se fosse um jogo de tabuleiro, seria algo como “fique duas (ou mais) rodadas sem jogar”.

Remez (רֶמֶז) – dicas ou insinuações

O Pendurado - Tarot Tarmasz
O Pendurado – Tarot Tarmasz

Remez aborda aquilo que está implícito ou é apresentado de forma figurativa no texto. No nosso caso, na carta.

Ainda com relação ao Pendurado, sabemos que a posição de ponta-cabeça era a típica punição dos traidores. Pela ótica do tarot, não quer dizer que ele traiu alguém, mas traiu a si mesmo.

“Quem sou eu para estar nesta posição?” é uma pergunta válida. Em que ponto o consulente deixou de seguir a sua natureza para atender a expectativa das outras pessoas? Se fez isso, qual foi a motivação? E o que impede agora de se libertar?

Com um pé preso e o outro solto, as pernas assumem a forma de um número quatro invertido. A imagem é similar às pernas do Imperador, Arcano IV, dos baralhos que seguem a ilustração do Marseille. No caso do Imperador, ele está saindo do trono ou está apenas apoiado nele, pronto para entrar em movimento. Por conta da inversão, reforçamos que falta mobilidade e de poder de realização (atributo do Imperador) ao Pendurado.

“Pendente” significa estar pendurado.  O que ainda não está resolvido (está pendente) para que ele saia desta condição? O fato de estar de cabeça para baixo, também sugere que ele deva observar as coisas com outra perspectiva.

Aqui pinçando algumas informações que vão depender do contexto e da posição da carta no jogo.

Drash (דְּרַשׁ) – o que exige pesquisa

O Pendurado – The Norse Tarot
O Pendurado – The Norse Tarot

Midrash é uma coletânea de ensinamentos judaicos. Quase sempre tem por base os ensinamentos da Torá escrita e da Torá oral, passada de geração para geração. A palavra midrash deriva de drash, que significa “estudo”, “interpretação” ou “pesquisa”.

(imagem: O Pendurado – The Norse Tarot) Em outras palavras, buscamos outras referências para estabelecer correlações. O Pendurado é muitas vezes associado ao deus nórdico Odin, que se ofereceu em sacrifício, pendurado em Yggdrasil. A atitude pode soar bizarra,  mas faz parte de um contexto cultural com suas próprias metáforas. Ele ficou nove dias e nove noites ferido e suspenso para obter o conhecimento das Runas.

A palavra “sacrifício” vem do latim sacrificium (sacer + ficium) que se traduz como “ofício sagrado” ou “o ofício de tornar sagrado”. Em linhas gerais, você oferece algo (ou se priva dele) para obter um favorecimento ou graça de maior valor.

Várias considerações podem ser feitas, boas e ruins. Faz sentido sacrificar baladas e outras distrações se você se propõe a passar em um concurso, por exemplo. Ou se precisa juntar dinheiro para uma viagem. Trata-se de algo que tem começo, meio e fim.  Numa situação dessas, o Pendurado poderia indicar algo positivo na leitura. A disposição para ou a necessidade de. Por outro lado, se você faz algo que não compensa e só causa sofrimento, algo está muito errado.

Sod (סוֹד) – a dimensão do secreto

O Pendurado – The Jungian Tarot
O Pendurado – The Jungian Tarot

Nos textos hebraicos são extraídas novas informações a partir da transformação das palavras, entre outros métodos. Algumas vezes as letras mudam de posição. Em outras, a palavra é trocada por outra de mesmo valor guemátrico (numerológico). O objetivo é expandir o sentido da frase a partir dessas variações. Também há observações de letras cortadas, em diferentes proporções ou propositalmente ausentes.

Este é o aspecto mais explorado pela Cabalá porque revela o desdobramento místico de um ensinamento.

Começo, então, revelando algo muito místico que aprendi na série de TV do Batman ’66: quando você cai na areia movediça, procure não se mexer. Quanto mais você se agita, mais rápido afunda. Mantenha a calma para ganhar tempo até que a ajuda chegue. Funciona igual com o Pendurado. Quanto mais você se sacode, mas o nó aperta.

A postura de ponta-cabeça, além de trazer inúmeros benefícios, indica a necessidade de aceitar as coisas como elas são. A gente precisa aceitar primeiro antes de tentar mudar. De modo geral, apenas rejeitamos. Conduzimos nossas vidas guiados por apegos e aversões. De preferência, culpamos o outro pela nossa fase ruim.

O indiano tem uma expressão, sharanagati, que significa “rendição”. Do ponto de vista mundano, rendição nunca soa bem. Interpretamos como fraqueza, como derrota. Mas render-se, aqui, dentro de uma perspectiva espiritual, tem a ver com se submeter a uma Vontade Superior.

Pema Chödrön, monja da tradição Vajrayana tibetana e autora de diversos livros sobre Budismo, diz que há um sentimento de liberdade quando aceitamos que não estamos no controle. Por vezes, o simples fato de se render faz com que a corda seja cortada. Sério.

Na sequência das cartas, temos 11, A Força, 12, O Pendurado, e 13, A Morte. A carta da Força representa o poder, o controle, a virtude da fortaleza. Talvez por isso tenhamos que experimentar a impotência em seguida. E se aqui estamos amarrados, logo depois surge alguém com um objeto de corte. Não por acaso, o Arcano 13 representa as transformações internas.

A Força, O Pendurado e A Morte – Dame Fortune's Wheel Tarot
A Força, O Pendurado e A Morte – Dame Fortune’s Wheel Tarot

É importante tem em mente também que se a gente não insere paradas regulares em nossas vidas, pode ser que ela nos obrigue a parar de outra forma. É uma perna que quebra ou uma doença que nos coloca de cama (bate na madeira). Momentos como estes nos tiram do piloto automático, promovem a introspecção. Isso é muito saudável.

Tente perceber a diferença entre quem você deseja ser e no que você se tornou. Tente perceber se você segue os fluxos da vida ou se está a se debater contra a correnteza. Talvez você tenha que aceitar que está na profissão errada, ou na empresa errada, ou no relacionamento errado. Talvez tenha que aceitar que não é tão bom quanto pensava ou que não é (mais) “forte como um touro” (assim repetia meu pai) e que precisa se cuidar.

A gente aprende desde pequeno a “fazer alguma coisa” a não se conformar com aquilo que incomoda. Quando a vida vira de cabeça para baixo, ingressamos no território da não-ação e da aceitação como virtudes. “Be water, my friend”.

“Como todo mundo, você procura aprender como vencer, mas nunca como perder — como aceitar a derrota. Aprender a morrer é se libertar da morte. Então, quando amanhã chegar, você precisa se livrar da sua mente ambiciosa e aprender a arte da morte” – Bruce Lee.

Há muito mais o que falar desta carta e há outras 77 a apresentar. A intenção foi mostrar que o tarot pode ser uma poderosa ferramenta de desenvolvimento pessoal sem superstições e adereços folclóricos. É uma pena que em muitas feiras esotéricas se veja tantas pessoas fantasiadas. Pior é saber que se não vão com este aparato, não têm clientes. É uma “Lei de Tostines”.

Seja como for, procure uma pessoa séria e saiba o que as cartas podem falar do seu momento. Ou aprenda esta linguagem e transforme-se com ela.

Possam todos se beneficiar!

***

Marcelo Bueno é carioca e publicitário por formação. Está envolvido com o estudo do Tarot desde 1989. Atende e oferece cursos/workshops nos últimos 10 anos. É editor do site Zephyrus Tarot (http://www.zephyrustarot.com.br) onde compartilha o que aprendeu do tarot e frequentemente mescla com outros conhecimentos.

2 comentários em “Não Trago a Pessoa Amada: Tarot, Aconselhamento e Autorrealização

  1. Paulo Cavalcanti junho 1, 2018 — 8:11 am

    Excelente Marcelo! Uma belíssima aula, muito bacana esses quatro níveis de interpretação segundo a cabala! Valeu! Abraço!

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